12/11 - 台北
Nunca havia caminhado por uma cidade às 4 da madrugada, acho. Posso já ter precisado fazer coisa semelhante em alguma outra viagem para chegar em tempo para algum voo maluco. A memória, assim como a piroca, é falha.
Na caminhada de 4 km até a o ponto de partida, me senti um figurante num filme de zumbi (sim, zumbis de novo): À medida que nos aproximávamos mais pessoas iam aparecendo, dobrando as esquinas, se juntanto à massa que se avolumava em direção ao ponto de partida, embaixo de, mais uma vez, aquela chuvinha irritante, que pela segunda maratona me fez companhia intermitente e empoçou as ruas sob meus pés. Bela experiência ver o sol nascer, ou não vê-lo, porque estava chovendo, correndo, por ruas de Taiwan.
Corrida meio pobrinha, com estrutura humilde. Pouca sinalização, sem banners ou grandes cartazes, apenas tiozinhos segurando aquelas plaquinhas com um cabo apoiado no chão com a informação essencial. Ao longo do trajeto, apenas água e energético em copinhos, um wafer doce, bolacha de água e sal e uma mentinha salgada sendo oferecidos.
O percurso, contudo, mais periférico do que o de Seul, foi bem mais bonito e esforçado, com bastante verde, margens de rios, passagem por dentro de parques. Nesta corrida, o quem em Seul havia de gente com aqueles esparadrapos coloridos meio inúteis colados em e se soltando de suas pernas e coxas, aqui havia de pessoas correndo de chinelos! Embaixo de chuva, pra deixar cada passo mais instável ainda. E a maioria deles, ainda assim, num ritmo melhor do que o meu.
Enfim, 4:43. Acintosamente ruim.
Uma de minhas piores maratonas, com tempo pior do que o da maioria dos treinos. Pior, de longe do que a anterior, feita com uma bolha enorme na sola do pé e com um calcanhar sendo devorado pelo tênis a cada pisada. Desta vez, com meus pés mais enfaixados do que o pinto da múmia de Ramsés III em seu sarcófago, não havia dor à qual responsabilizar. Nem sol ou as temperaturas horrendas que vou cada vez mais encarar nos treinos de volta a SP. Com o alemão com quem desde a caminhada da véspera eu vinha repetidamente esbarrando me ultrapassando e me deixando lá pra ver sua bunda desaparecendo no horizonte, humilhado. Seu amigo, ou marido, sei lá, também da caminhada, não havia conseguido se inscrever em tempo para a prova, e não se deixou comover por minha sugestão de correr de bicão mesmo, que grande mal haveria em filar alguns copos de água? A gente tenta plantar a semente do espírito de porco, mas às vezes o terreno é pouco fértil...
Teriam sido as poucas horas de sono, na véspera, ou os 4 km já caminhados antes do início da provas, os responsáveis por este tempo vergonhoso? Tudo posto, provavelmente é só a velhice e a decrepitude, me empurrando para esta ininterrupta marcha em direção à irrelevância, como o Neymar, mas com bem menos dinheiro no bolso.
À tarde, mais uma caminhada, teria dado pra fugir sem pingar a gorjetinha, mas, what the hell, até estava sobrando dinheiro mesmo. Trocamos 200 dólares no aeroporto e, em 4 dias de Taipei, não conseguimos gastar tão pouco, ainda estamos levando um terço disto para o próximo país, torcendo para que aceitem convertê-lo. Com uma guia bonitinha, mas com aquele inglês todo embolado. Um presente para os olhos, mas uma provação para os ouvidos.
Tentamos jantar num restaurante manjadinho, cuja localização o Google Maps conseguiu apontar corretamente, só omitiu o detalhe de que havia sido fechado. Numa passadinha prévia por outro mercado noturno de comida, reconsiderei um pouco minha impressão de cheiro de esgoto da cidade. Boa parte do aroma, na verdade se deve a intestinos de porco e obarraquinhas de mercado e portas de restaurantesutros bichos sendo cozinhados em caldeirões nas , e a catinga se espalha pela cidade.
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